Abel ajudou a elevar a régua do Palmeiras e agora também precisa conviver com ela. Os títulos garantem reconhecimento ao treinador, mas não deveriam blindá-lo das perguntas sobre o presente
Abel Ferreira tem todo o direito de defender o Palmeiras e tentar aliviar a pressão sobre seu elenco. Depois da perda da liderança do Brasileirão para o Flamengo, o treinador destacou a diferença de investimentos entre os clubes e afirmou que o rival tem uma “obrigação” maior de fazer mais. A declaração, porém, merece um ponto e contraponto: Abel não está completamente errado, mas os números também não permitem transformar essa diferença em uma espécie de salvo-conduto para o Palestra.
Comecemos pelo argumento do treinador. Em 2026, o Flamengo realmente investiu mais no mercado. Levantamento aponta R$ 341,4 milhões gastos pelo Rubro-Negro em reforços contra R$ 212,2 milhões do Palestra até agosto, uma diferença superior a R$ 129 milhões. Além disso, a contratação de Lucas Paquetá representou um investimento gigantesco. Portanto, seria injusto dizer que Abel inventou uma disparidade financeira. O Flamengo tem maior capacidade de arrecadação e, neste ano, também colocou mais dinheiro na montagem do elenco.
O problema começa quando essa constatação é utilizada para sugerir que a responsabilidade esportiva da SEP seria significativamente menor. Investir mais não significa ter obrigação exclusiva de vencer. O próprio Verdão aparece entre os clubes que mais gastaram no futebol brasileiro em 2026 e montou um elenco de enorme valor. A diferença financeira existe, mas não coloca o Palmeiras em uma realidade de coadjuvante diante do clube carioca.
Existe um dado que torna essa discussão ainda mais interessante. Em 2025, a fotografia foi praticamente invertida: o Palmeiras investiu cerca de R$ 928,9 milhões em jogadores, considerando direitos, luvas e intermediações, enquanto o Flamengo ficou em R$ 635,6 milhões nesse critério. Ou seja, no ano anterior, o Alviverde gastou aproximadamente R$ 293 milhões a mais.

Rivais e dois titãs em investimentos
A conclusão, portanto, não pode ser que o Flamengo sempre investe mais e o Palmeiras apenas tenta acompanhá-lo. Os dois clubes operam em patamares de investimento muito elevados, embora com estratégias diferentes. Por isso, Abel tem razão ao apontar que o Flamengo possui uma força financeira superior, mas essa verdade não pode ser usada para diminuir a própria responsabilidade. O Verdão não está tentando entrar no grupo dos grandes. Já é uma potência esportiva e financeira.
Tem estrutura, elenco, capacidade de investimento e disputa simultaneamente Brasileirão, Libertadores e Copa do Brasil. Nesse cenário, competir é necessário, mas não pode ser apresentado como se fosse o objetivo final. É justamente aqui que entra outra fala recorrente de Abel: a necessidade de “desfrutar” o fato de o Palmeiras continuar competitivo. É compreensível. Disputar três competições em alto nível é difícil, e nenhum clube tem obrigação de conquistar tudo.
História vencedora não começou em 2020
Mas existe uma diferença entre reconhecer a dificuldade e aceitar a competitividade como suficiente. No Maior Campeão do Brasil, a cultura criada nos últimos anos elevou a régua. O time não precisa vencer sempre, mas precisa ser cobrado para encontrar soluções quando deixa de apresentar o mesmo nível. Também é preciso lembrar que o Palmeiras não nasceu em 2020, quando Abel chegou. Antes do português, o clube já possuía uma história centenária, títulos nacionais e internacionais e vinha de um processo de reconstrução que também havia produzido conquistas importantes.
Abel ampliou essa história de maneira extraordinária e se tornou um dos maiores treinadores da trajetória palmeirense, mas não é proprietário dela. O passado glorioso pertence ao clube e à sua torcida. Talvez esteja justamente aí uma das razões para o desgaste entre Abel e parte da arquibancada. Quando o treinador responde aos questionamentos lembrando conquistas e pedindo que o torcedor desfrute da competitividade, pode transmitir uma mensagem diferente daquela que pretende.
O torcedor não necessariamente ignora o que Abel conquistou. Ele apenas olha para o presente e cobra respostas para os problemas atuais. Gratidão e cobrança não são sentimentos incompatíveis. Isso também vale para a comparação com o Flamengo. O rival pode ter mais dinheiro e ter investido mais em 2026. Abel tem razão nesse ponto. Mas o Palmeiras também investiu, também possui um elenco poderoso e também decidiu entrar na temporada com ambição de disputar três títulos.
O verdadeiro ponto sobre investimentos e obrigações
Portanto, a pergunta deveria ser o que cada clube está fazendo com os recursos que possui. Transferir parte da pressão para o adversário pode ser uma estratégia de comunicação e até mesmo de ‘guerra psicológica’, mas não resolve uma eventual deficiência dentro de campo. Abel não precisa ser tratado como vilão para ser questionado.Seu legado merece respeito, mas legado não é imunidade.
O Flamengo pode ter uma obrigação maior por sua capacidade financeira e pelo investimento feito em 2026. Isso não significa que o Palmeiras tenha uma obrigação menor. O clube de Abel não é um azarão tentando sobreviver diante de um gigante: é também uma potência. E, para uma torcida acostumada a vencer, ser competitivo é importante, mas continuar buscando respostas para vencer, sem ‘espantalhos’ sobre uma perceptível crise, é indispensável.




