Giay vira protagonista, e Palmeiras mostra por que sua força vai além do placar

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Com 22 finalizações e 2,60 gols esperados, o Palmeiras transformou sua superioridade em resultado e expôs as razões táticas por trás do 4 a 1

O Corinthians entrou no Derby precisando de respostas. Saiu com quatro gols na conta, uma crise mais funda e a sensação de que o Palmeiras havia encontrado um adversário disposto a colaborar com a própria demolição. O 4 a 1 no Nubank Parque, pela 30ª rodada do Brasileirão, igualou a maior goleada do clássico neste século. Para o Verdão, porém, o resultado expõe a força de uma equipe capaz de encontrar diferentes caminhos para machucar o adversário. E teve um argentino que resolveu assinar a obra.

Agustín Giay marcou duas vezes, aos 45 minutos do primeiro tempo e aos cinco da etapa final. Para um lateral, fazer dois gols em um Derby é uma maneira bastante eficiente de solicitar mudança de cargo no departamento de marketing, embora Abel Ferreira provavelmente prefira manter o jogador onde ele rende ao coletivo. A atuação do argentino merece atenção justamente por isso: seus gols não devem ser tratados como acontecimentos isolados, mas como parte de uma estrutura que permitiu ao Palestra ocupar espaços, acelerar as jogadas e chegar à área com jogadores de diferentes posições.

O primeiro gol alviverde, marcado por Alexander Barboza aos 16 minutos, já apontava uma das armas da equipe. Lucas Evangelista participou da construção da bola parada, e o zagueiro argentino concluiu de cabeça. O lance reforça um dado relevante: a bola parada não é um acessório decorativo no repertório de Abel. Segundo a análise de Paulo Vinícius Coelho, o gol de Barboza foi o 26º do Palmeiras em jogadas desse tipo na temporada. Em um futebol que transforma cada escanteio em uma pequena assembleia de empurrões, o Verdão tem tratado essas oportunidades como uma forma concreta de produção ofensiva.

O segundo gol mostrou outra face do time. Aos 45 minutos, Giay aproveitou uma sequência de passes que envolveu Jhon Arias e apareceu em condição de finalizar. Foi o sinal claro da equipe encontrando um caminho para desmontar a organização corintiana por meio da circulação da bola. A jogada ajuda a explicar por que a análise do Derby não pode ficar restrita ao placar ou à atuação de um protagonista. O mérito esteve também na coordenação dos movimentos, na ocupação dos espaços e na capacidade de fazer o adversário perseguir a bola enquanto a SEP preparava o golpe seguinte.

Um amasso do Palestra para cima do rival

Os números dão sustentação a essa leitura. O Verdaço terminou a partida com 55% de posse, 22 finalizações, oito delas no alvo, e 2,60 gols esperados (xG). O Corinthians ficou com 45% da bola, finalizou 12 vezes, acertou o gol em três oportunidades e registrou xG de 0,71. O Verdão também criou três grandes chances, contra nenhuma do rival. A diferença não se resume na posse de bola e sim no produzir mais, chegar em condições melhores e converter parte importante desse volume em gols. Posse sem perigo é estatística fria, ornamento sem finalidade; posse acompanhada de agressividade ofensiva pode decidir um campeonato.

O início do segundo tempo transformou a vantagem em constrangimento. Logo no primeiro minuto, Matheus Bidu marcou contra. Quatro minutos depois, Giay aproveitou o rebote de Hugo Souza e fez o quarto. Em cinco minutos, o Palestra ampliou o estrago e deixou o Corinthians diante de uma tarefa que exigiria mais do que ajustes no intervalo. A equipe de Abel soube aproveitar o momento de desorganização rival, algo que separa times eficientes daqueles que precisam de uma reunião extraordinária para perceber que o adversário está oferecendo espaço.

Há uma nuance importante no desempenho de Giay. Escalado pelo lado direito em uma estrutura com três zagueiros, o argentino teve liberdade para participar das ações ofensivas sem que isso significasse abandonar a função de origem. O desenho permitiu ao time combinar a proteção da última linha com a projeção dos alas. Giay foi decisivo na conclusão, mas a análise tática precisa olhar também para quem sustentou a jogada, quem ocupou os espaços próximos e como a equipe ofereceu linhas de passe. Dois gols são a parte visível da história, a engrenagem que os tornou possíveis é o que interessa a quem pretende entender o futebol para além da comemoração.

Coletivo do Palmeiras esteve impecável no Derby

Também vale olhar para a atuação coletiva sem transformar a goleada em propaganda institucional. Andreas Pereira e Lucas Evangelista participaram da circulação e da construção, Arias apareceu na jogada do segundo gol, e Barboza foi decisivo na bola parada. A variedade de protagonistas ajuda a explicar por que o Maior Campeão do Brasil conseguiu marcar por caminhos diferentes. O time não dependeu exclusivamente de um centroavante inspirado ou de um lampejo individual. Quando diferentes peças encontram condições para decidir, a marcação adversária passa a ter um problema de distribuição: fechar uma porta pode significar deixar outra aberta.

O placar poderia ter sido ainda mais elástico. Paulinho voltou a atuar depois de mais de dois meses e sofreu pênalti de Raniele, mas desperdiçou a cobrança, defendida por Hugo Souza. O episódio não apaga a superioridade palmeirense, apenas lembra que goleadas também têm suas pequenas imperfeições. O Corinthians ainda marcou com Gustavo Henrique nos acréscimos, evitando terminar sem balançar a rede. Foi um consolo modesto, desses que servem para a ficha técnica, mas pouco alteram a fotografia de uma partida dominada pelo adversário.

Há, evidentemente, um componente externo que precisa ser considerado. O Corinthians atravessa uma crise de resultados e sofreu sua oitava derrota consecutiva no Brasileirão, segundo a cobertura da partida. O Palmeiras, por sua vez, luta pelo título e chegou a 63 pontos. A diferença de momento ajuda a contextualizar o resultado, mas não explica sozinha a maneira como ele foi construído. O rival ofereceu fragilidades; o Verdão teve competência para identificá-las e explorá-las.

O Derby também deixa uma mensagem sobre o trabalho de Abel Ferreira. O sistema não elimina a importância dos talentos individuais, mas cria condições para que eles apareçam. Giay foi o nome mais vistoso da tarde, mas seria um erro atribuir ao argentino, sozinho, uma goleada construída por um time que funcionou em conjunto.

Giay simboliza a goleada, mas trunfo tático da SEP como um todo

O resultado tem peso especial porque o calendário não concede à SEP o luxo de viver indefinidamente a euforia do clássico. A equipe chegou aos 63 pontos e agora volta as atenções para a semifinal da Libertadores contra o Fluminense. A goleada pode fortalecer a confiança, mas não garante que os mesmos espaços estarão disponíveis no próximo compromisso. A exigência será outra, e a capacidade de repetir a intensidade e a organização demonstradas no Derby valerá mais do que qualquer celebração prolongada. É nesse ponto que uma grande vitória precisa deixar de ser lembrança e virar referência.

Giay sai do clássico com dois gols e uma candidatura legítima a protagonista da análise. Mas o melhor elogio que se pode fazer ao argentino é não tratá-lo como uma exceção inexplicável. Seus gols revelaram uma equipe que soube ocupar espaços, pressionar, criar e ser eficiente. O Verdaço venceu por 4 a 1, chegou a 63 pontos e mostrou que sua força ofensiva não está confinada a um único nome. O Derby teve um herói improvável, uma goleada expressiva e um rival em dificuldades. Para Abel, a notícia mais importante talvez seja outra: quando o coletivo funciona, até o lateral-direito encontra tempo para virar artilheiro de clássico.

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