Possível saída de Abel revela como o Palmeiras precisa agir para evitar sério dano futuro

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Abel transformou o próprio ciclo em parte da identidade do Palmeiras. Quanto mais longa é uma era vencedora, maior fica o desafio de preservar seus processos

O interesse do Sporting por Abel Ferreira poderia facilmente transformar a pauta em mais uma discussão sobre o futuro do treinador no Palmeiras. Não é esse, porém, o ponto que mais chama atenção. O clube português voltou a tratar o técnico como uma possibilidade para o futuro, mas Abel tem contrato com o Verdão até dezembro de 2027, e as informações mais recentes apontam para a confiança interna de que o vínculo será cumprido. Nem a SEP nem o treinador deram sinais de que pretendem antecipar o fim da relação.

A notícia, portanto, não precisa ser encarada como uma ameaça imediata. Ela funciona melhor como um lembrete de planejamento. Prestes a completar seis anos no comando do Palmeiras, Abel deixou de ser apenas o treinador responsável por escalar o time para se tornar uma das figuras centrais de um projeto esportivo que atravessou diferentes versões de elenco, títulos, reformulações e momentos de pressão. É justamente por isso que o Palmeiras precisa pensar no que existirá quando esse ciclo, inevitavelmente, chegar ao fim.

Seria cedo demais e, principalmente, pouco produtivo escolher nomes para uma sucessão que ainda não está colocada. A questão crucial nesse fato é quanto do que o Verdão construiu pertence ao próprio clube e quanto está diretamente associado ao treinador. Modelo de jogo, critérios de contratação, utilização da base, gestão do elenco, rotina de treinamento e até determinadas soluções para problemas competitivos foram desenvolvidos durante uma relação extremamente longa. Transformar esse conhecimento em patrimônio institucional é um dos desafios de uma era tão extensa.

Esse cuidado ganha ainda mais importância porque a força do trabalho de Abel também está na continuidade da comissão técnica. João Martins já assumiu o time em momentos nos quais o treinador esteve suspenso e recentemente voltou a comandar a equipe no empate com o Grêmio, mantendo o discurso de competitividade do projeto. Isso destaca o quanto processos, informações e métodos precisam sobreviver às pessoas que os executam. Planejamento não é escolher o próximo treinador, é evitar que a saída de um técnico obrigue o clube a começar do zero.

Desafio está nas mãos da futura gestão do Palestra

Existe ainda uma coincidência institucional importante nesse calendário. O contrato de Abel termina em dezembro de 2027, exatamente no fim do segundo mandato de Leila Pereira. A presidente já afirmou que não pretende discutir uma renovação do treinador e deixará essa decisão para o próximo presidente. Dessa maneira, a SEP poderá chegar a 2027 diante de duas discussões simultâneas: quem comandará politicamente o clube e qual será o próximo capítulo da relação com o treinador que marcou a principal era recente da instituição.

Isso coloca uma responsabilidade adicional sobre a sucessão presidencial. O próximo comando da SEP não deveria receber apenas um elenco pronto e um treinador sob contrato. Deveria receber também uma estrutura capaz de explicar por que determinadas decisões são tomadas, quais princípios devem permanecer e quais podem ser modificados. Um clube profissional não pode depender exclusivamente da memória de quem participou de uma determinada era. A continuidade precisa estar nos processos antes de estar nos nomes.

O mesmo raciocínio vale para a montagem do elenco. O Palmeiras precisa contratar pensando no presente, naturalmente, mas também em jogadores capazes de oferecer soluções para diferentes treinadores e diferentes modelos. Construir um grupo excessivamente moldado pelas preferências de uma única comissão pode funcionar enquanto aquela liderança permanece. O desafio de um clube que pretende disputar títulos continuamente é produzir um elenco que não perca sua identidade a cada mudança de comando.

A base entra nessa equação de maneira ainda mais relevante. A redução gradual do limite de estrangeiros no futebol brasileiro, que começa em 2027 e chega a cinco atletas por partida em 2030, aumenta a importância estratégica da formação nacional. O Palmeiras atualmente tem oito estrangeiros e está dentro do limite previsto para 2027, mas precisará acompanhar a redução nos anos seguintes. Esse cenário reforça a necessidade de formar jogadores não apenas para preencher espaços, mas para oferecer ao clube alternativas capazes de atravessar mudanças de treinador, de geração e de modelo.

Planejamento para o pós-Abel é vital

Há uma diferença importante entre preparar o Palmeiras para o pós-Abel e trabalhar pela saída de Abel. A primeira ideia é planejamento, a segunda seria uma decisão esportiva que hoje não está colocada. O próprio histórico recente mostra que a estabilidade da comissão técnica foi um dos elementos associados à estrutura que permitiu ao Maior Campeão do Brasil desenvolver jogadores e manter processos durante anos. Se essa continuidade foi uma das forças do projeto, o passo seguinte deveria ser fazer com que o conhecimento produzido por ela não desapareça quando uma pessoa deixar de ocupá-la.

O interesse do Sporting pode ser interpretado mais como uma oportunidade para o Palestra olhar alguns anos à frente. Abel já esteve no radar do clube português em outras ocasiões, e a relação é anterior ao trabalho desenvolvido no futebol brasileiro: foi no Sporting que o treinador encerrou a carreira como jogador e iniciou parte da formação como técnico. Não existe novidade suficiente nessa aproximação para transformar o episódio em crise. Existe, porém, um lembrete de que grandes ciclos também precisam de planejamento para o momento seguinte.

O verdadeiro legado é pavimentar a continuidade

O Palmeiras não precisa encontrar agora um “novo Abel”. Essa procura seria até uma forma de reduzir uma discussão muito maior. O que o clube precisa construir é um caminho que consiga continuar competitivo quando não tiver mais Abel Ferreira no banco. Isso passa por comissão técnica, formação, recrutamento, departamento de futebol, metodologia, transição de jovens e, principalmente, pela capacidade de transformar decisões que hoje parecem pessoais em processos institucionais. O maior legado de uma era vencedora talvez seja justamente aquilo que consegue sobreviver a ela.

Abel pode permanecer até 2027, pode discutir uma renovação com o próximo presidente ou pode, em algum momento posterior, escolher outro caminho. Nenhuma dessas hipóteses precisa ser antecipada como fato. O ponto é que o Palmeiras tem uma vantagem rara: ainda possui tempo para pensar no futuro enquanto o presente está funcionando. O interesse do Sporting descarta uma resposta de emergência. Exige uma reflexão de longo prazo. Planejamento de verdade não começa quando o ídolo anuncia a saída, começa enquanto ainda existe estabilidade suficiente para preparar o clube para o dia seguinte.

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