Três fatores explicam mudança de cenário e aprovação da Ticketmaster no São Paulo

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Contrato, situação financeira, Feng e redução da multa ajudaram a mudar a percepção de conselheiros antes da votação

A votação do contrato entre São Paulo e Ticketmaster terminou muito diferente da expectativa inicial de bastidores. O que internamente era tratado como uma disputa potencialmente apertada acabou com 184 votos favoráveis, 44 contrários e uma abstenção. Segundo apuração do Bolavip Brasil, três fatores foram considerados importantes por pessoas que acompanharam a discussão e ajudam a explicar a mudança de cenário entre os conselheiros.

Antes da votação, havia a percepção de que a oposição faria forte resistência ao acordo. O contrato vinha sendo questionado principalmente pelo processo de escolha da empresa e por alguns pontos considerados sensíveis da negociação. A própria comissão que analisou o documento havia dado parecer favorável, mas com ressalvas.

O entendimento que ganhou força nos bastidores, porém, foi de que uma coisa era questionar a forma como a negociação havia sido conduzida e outra era considerar o contrato ruim para o São Paulo. A leitura de parte dos opositores passou a ser de que os valores e as condições da operação eram interessantes, enquanto a situação financeira do clube transformava a antecipação de recursos em um fator adicional de peso na decisão.

A situação financeira mudou o peso da antecipação

O primeiro ponto apontado nos bastidores foi justamente a percepção de que o São Paulo precisava dos recursos no curto prazo. A diretoria vinha apresentando a antecipação como necessária para enfrentar os atrasos com jogadores e outras obrigações, e fontes que acompanharam a discussão relatam que esse argumento ganhou força durante o processo de análise do contrato.

A operação prevê R$ 110 milhões em antecipação, que serão devolvidos pelo clube ao longo de cinco anos, com remuneração vinculada ao CDI mais 1,99%. Além disso, estão previstos R$ 30 milhões pela exploração do camarote 29A durante cinco anos. O total chega a R$ 140 milhões, embora as duas parcelas tenham naturezas diferentes.

Dentro da oposição, segundo a apuração, passou a existir a avaliação de que o contrato poderia ser mantido mesmo com críticas ao processo de contratação. O candidato oposicionista Marcelo Portugal Gouvêa também votou favoravelmente, de acordo com a apuração do Bolavip Brasil. A posição é relevante porque mostra que o debate sobre a necessidade de caixa passou a ser separado das críticas feitas anteriormente à condução da operação.

Feng e multa também pesaram na decisão

O segundo ponto envolveu a Feng, atual responsável pelo programa de sócio-torcedor. Antes da votação, circulavam informações sobre um possível custo elevado para o São Paulo romper o contrato e transferir a operação para a Ticketmaster. A discussão ganhou força porque a inclusão do sócio-torcedor fazia parte do acordo apresentado aos conselheiros.

A diretora jurídica do clube, Érica Duarte, apresentou aos conselheiros a interpretação jurídica da gestão sobre o contrato. Segundo o São Paulo, a Feng teria direito a uma indenização estimada atualmente em aproximadamente R$ 3,7 milhões, considerando a receita dos últimos seis meses, e não aos cerca de R$ 40 milhões que vinham sendo mencionados. O clube sustenta ainda que o direito de preferência previsto no contrato se aplicaria a uma eventual renovação, e não à substituição da empresa em uma nova operação.

O terceiro fator foi a própria multa rescisória da Ticketmaster. Um dos principais questionamentos de parte dos conselheiros era a previsão inicial de R$ 25 milhões em caso de rompimento do contrato, além da devolução da antecipação. Durante a reunião, a empresa aceitou reduzir essa multa para R$ 14 milhões, mudança que foi considerada relevante para diminuir uma das principais resistências ao acordo.

O resultado dos blocos de votação mostra que a discussão foi além do simples “sim” ou “não” ao contrato. Na ressalva relacionada à multa, 209 conselheiros votaram pela aprovação, 17 contra e três se abstiveram, segundo a apuração do Bolavip Brasil. Já no item relacionado ao sócio-torcedor, 152 votaram pela inclusão da operação da Ticketmaster, enquanto 73 defenderam a retirada desse ponto.

Na prática, os conselheiros poderiam ter aprovado a Ticketmaster apenas como responsável pela bilheteria e rejeitado a transferência do programa de sócio-torcedor. Isso não aconteceu. A proposta acabou sendo aprovada em sua totalidade, incluindo a mudança na operação dos associados e os demais pontos apresentados pela diretoria.

O número final também chamou atenção porque, antes da votação, havia uma expectativa de disputa muito mais equilibrada. A comparação feita nos bastidores com outras votações recentes do Conselho ajudava a alimentar essa percepção. O resultado de 184 a 44, porém, mostrou que uma parcela significativa dos conselheiros que fazia ressalvas ao acordo acabou votando pela aprovação.

Isso não significa que todos os questionamentos tenham desaparecido. As críticas ao processo de escolha da Ticketmaster permaneceram durante a tramitação, inclusive com questionamentos apresentados pela NewC e ressalvas registradas pela comissão especial. O que mudou, segundo a leitura de pessoas que acompanharam a votação, foi a avaliação sobre o custo-benefício da operação diante da situação financeira do clube.

No fim, três elementos acabaram se cruzando: a percepção de que os termos financeiros do contrato eram aceitáveis, a compreensão de que o São Paulo precisava da antecipação para enfrentar compromissos imediatos e as mudanças em pontos que geravam maior resistência, como a multa e a questão do sócio-torcedor. Foi nesse cenário que o apoio ao acordo cresceu durante a discussão no Conselho.

Agora, com a aprovação concluída, a discussão muda de natureza. O São Paulo precisa assinar o contrato e cumprir as etapas necessárias para receber os recursos previstos, enquanto a diretoria pretende utilizar o dinheiro para enfrentar os atrasados com o elenco e reorganizar o caixa. A votação mostrou uma mudança importante no ambiente do Conselho; os próximos meses mostrarão como a gestão utilizará o dinheiro que conseguiu viabilizar.

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