Palmeiras alcança marca histórica na atual temporada e desafia gerações de 1996 e 2022

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O desempenho acumulado por Abel supera a percepção de desgaste e abre uma discussão sobre o peso real desta temporada

O futebol tem uma relação curiosa com a memória. Uma equipe pode atravessar uma temporada sob cobranças, conviver com desconfianças e ainda assim produzir números que a colocam ao lado de algumas das melhores formações de sua história. É o caso do Palmeiras em 2026. Depois de 64 partidas, o time de Abel Ferreira chegou a 135 pontos, resultado que merece uma leitura menos apressada do que permite a rotina das competições.

O levantamento exclusivo do Data Palestra, núcleo de dados do Portal do Palestra, oferece uma dimensão histórica para essa campanha. Considerando os 64 primeiros jogos de cada temporada, com três pontos por vitória e um por empate em todas as competições, o Verdaço de 2026 aparece na sexta colocação entre 59 temporadas analisadas. São cinco campanhas à frente, e nenhuma delas pertence a um passado tão distante quanto se poderia imaginar. A mais recente é justamente a de 2022, também comandada por Abel Ferreira.

O primeiro lugar pertence a 1996, ano em que o Palmeiras de Vanderlei Luxemburgo construiu uma das equipes mais exuberantes do futebol brasileiro. Naquele recorte de 64 partidas, foram 153 pontos e 195 gols marcados. O time reunia nomes como Cafu, Cléber, Rivaldo, Djalminha, Müller e Luizão, uma combinação de talento técnico, velocidade e capacidade de agressão ofensiva que deixou marcas difíceis de reproduzir.

A dimensão daquela geração ficou particularmente evidente no Campeonato Paulista. Em 30 partidas, o Palmeiras conquistou 27 vitórias, empatou duas vezes e perdeu apenas uma. Foram 102 gols marcados e 19 sofridos, com aproveitamento de 92,2% dos pontos possíveis. Não era somente uma equipe vencedora: havia uma superioridade ofensiva que transformou a campanha em referência histórica. O ataque dos 100 gols continua sendo uma das imagens mais fortes da relação entre o clube e sua torcida.

O Raio-X da campanha de 2022 do Palestra

Quase três décadas depois, a campanha de 2022 oferece outra espécie de comparação. O Verdão de Abel somou 145 pontos nos primeiros 64 compromissos, dez a mais que o atual. Naquela temporada, a equipe acumulava 43 vitórias, 16 empates e apenas cinco derrotas, com 125 gols marcados e 41 sofridos. Era um time que combinava consistência defensiva, repertório coletivo e capacidade de resolver partidas sem precisar transformar todos os confrontos em demonstrações de força ofensiva.

O Brasileirão daquele ano ajuda a explicar a dimensão do trabalho. A SEP conquistou o campeonato com 74 pontos, 21 vitórias, 11 empates e somente duas derrotas. Terminou com a melhor defesa e o melhor ataque da competição, além de atravessar todo o torneio sem perder como visitante: foram dez vitórias e sete empates longe de casa. Abel estava em seu segundo ano completo de trabalho, e o time já apresentava uma identidade competitiva bastante reconhecível. Não por acaso, 2022 permanece como a referência mais próxima da atual campanha.

Máquina Verde de 1996 é incomparável, mas as novas gerações dão o seu recado

É nesse ponto que os 135 pontos de 2026 ganham significado. O Alviverde registra 40 vitórias, 15 empates e nove derrotas, com 106 gols marcados e 46 sofridos. O aproveitamento é de 70,3% dos pontos possíveis. A equipe está dez pontos atrás do recorte de 2022 e 18 distante do desempenho de 1996. A diferença existe e precisa ser respeitada. Mas a sexta posição também revela que, mesmo em uma temporada de oscilações e questionamentos, o rendimento acumulado permanece acima da maioria das grandes campanhas do clube.

O time atual não reproduz exatamente as virtudes de seus antecessores. Em relação a 2022, por exemplo, marcou 19 gols a menos e sofreu cinco a mais no mesmo número de partidas. Também perdeu quatro vezes mais. São diferenças que impedem qualquer tentativa de equiparar as equipes sem ressalvas. O mérito de 2026 está em sustentar uma pontuação expressiva em meio a um calendário exigente, com quatro competições disputadas e decisões distribuídas ao longo do ano.

Flaquito em ação, o artilheiro das Alamedas de 2026. Será que o camisa 42 caberia no fabuloso “ataque dos 102 gols” de 1996? Foto: Marcello Zambrana/AGIF

A distância entre o rendimento estatístico e a percepção cotidiana da torcida merece atenção. O torcedor não acompanha uma temporada por meio de uma planilha. Enxerga atuações, escalações, substituições, resultados frustrantes e oportunidades desperdiçadas. Uma sequência de partidas abaixo do esperado pode produzir uma sensação de desgaste que os números não captam integralmente.

O contrário também acontece: uma boa pontuação não elimina problemas de desempenho. A estatística não absolve o treinador, mas impede que a avaliação seja reduzida à impressão deixada pelo último resultado. Para Abel Ferreira, o dado tem uma consequência adicional. A campanha atual aparece entre as seis melhores do Palmeiras nos primeiros 64 jogos de uma temporada, e o treinador já ocupa um lugar central na história recente do clube.

O peso da continuidade no Palmeiras

A comparação com 2022 demonstra que o trabalho não dependeu de uma única formação ou de uma geração imutável de jogadores para continuar produzindo resultados relevantes. Gustavo Gómez, capitão e um dos símbolos dessa trajetória, ajuda a representar essa continuidade. Sua presença atravessa diferentes momentos do ciclo e dá rosto a uma equipe que aprendeu a conviver com a exigência permanente de disputar títulos.

O cuidado, entretanto, é não transformar uma classificação histórica em certificado antecipado de sucesso. O próprio levantamento do Portal do Palestra oferece uma advertência importante: os pontos somados em diferentes competições medem o ritmo de uma campanha, não seu destino. Em 2025, por exemplo, o Alviverde tinha 133 pontos no 64º jogo e terminou aquele ciclo sem conquistar a Libertadores. A temporada de 2026 ainda precisa responder dentro de campo às expectativas que seus números ajudam a construir. Afinal, os dados oferecem uma evidência menos sujeita ao humor das arquibancadas.

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